Eu(não)tanásia. E tu?

09-04-2010 18:00

A discussão sobre a eutanásia volta a estar na ordem do dia, com a decisão de um tribunal italiano. Este tribunal permitiu a morte de uma jovem que vivia em estado vegetativo há vários anos, ordenando que parassem de alimentá-la, deixando-a morrer.

 

Os avanços conseguidos pela medicina moderna vieram complicar as decisões relacionadas com os cuidados que devemos prestar aos doentes em estado grave. Em tempos passados, pouco se poderia fazer para prolongar a vida humana, mas o actual avanço da medicina para adiar a morte levanta diferentes questões de difícil resolução…

Quais são os incómodos que a fé cristã coloca ao uso desse poder pela medicina? Em que medida o objectivo de adiar o momento da morte deverá dar lugar ao objectivo de aliviar o sofrimento no fim da vida? Quem poderá tomar estas decisões? Que limites deverá, ou não, o amor cristão impor às acções destinadas a pôr fim ao sofrimento humano?

Estas e outras perguntas são de difícil resposta, mas vamos tentar deixar algumas pistas sobre o posicionamento de um cristão em relação à eutanásia (…) já que a preservação da vida é um valor que deve ser mantido até ao limite das nossas forças e capacidades…

 

Eutanásia? O que é isso?

A palavra eutanásia vem da combinação de dois termos gregos: o adverbio eu (bem) e uma variante do substantivo thanatos (morte), significando, de um modo geral, “boa morte” (ou morte tranquila). Na sua utilização mais “clássica” a palavra significa matar por misericórdia – o acto de colocar um fim à vida humana, propositadamente, por motivos de compaixão. Embora possa parecer que a “culpada” deste dilema é a tecnologia moderna, a verdade é que muitas civilizações antigas praticavam tanto a eutanásia activa como passiva.

Eutanásia activa é fazer algo de propósito que provoque a morte. A eutanásia passiva ocorre quando deixamos de dar medicamentos ou tratamentos para permitir que um doente tenha uma morte natural. Em ambos os casos o objectivo é a eliminação da dor. Resumindo: é o esforço humano no sentido de apressar a morte própria, ou a de um parente, ou de alguém que está em sofrimento.

 

Vida ou Morte?

Os defensores da eutanásia apresentam-na como sendo uma extensão dos direitos humanos, pois cada um deveria ter o direito a decidir sobre a própria vida. Mas, e quando se trata de outras pessoas? Quem tem direito de decidir sobre a vida de outro, baseado em conceitos relativos, como a qualidade de vida?

Os conflitos morais levantados pela eutanásia são muito complexos. À medida que a tecnologia fornece mais e mais recursos para se prolongar a vida, e a nossa sociedade abandona os valores judaico-cristãos, os doentes pedem cada vez mais aos médicos que acabem com as suas vidas. Ao mesmo tempo que afirmações absolutas como “Não Matarás”, dos Dez Mandamentos e a Regra Áurea (faz aos outros o mesmo que gostas que te façam a ti) diminuem de importância, outros conceitos tornam-se mais fortes.

 

Jesus, os cristãos e a saúde

A Bíblia ensina que o ser humano foi criado conforme a imagem de Deus e que Jesus morreu para salvar toda a humanidade. A pessoa de Jesus veio trazer um conceito revolucionário para as sociedades e culturas “mais evoluídas” da época. Isso inspirou os primeiros cristãos a terem um grande respeito pelo valor e dignidade da vida humana.

Os cristãos começaram a ser conhecidos por aqueles que cuidavam dos doentes, inclusive os que eram vítimas das pestes, os abandonados pela sociedade; e também denunciavam algumas práticas sociais romanas tais como o aborto, o assassínio de recém-nascidos, a eutanásia e o suicídio. Foi essa atitude que, no século IV d.C., levou à criação dos primeiros hospitais1.

O Cristianismo introduz uma mudança radical na cultura da época, trazendo tanto cuidados espirituais como físicos, valorizando a pessoa humana, não por aquilo que ela é no exterior, mas pelo seu valor próprio (por ter sido criada à imagem e semelhança de Deus).

 

Vida: um presente

A visão bíblica apresenta o valor da vida como uma questão inseparável do facto de que ela é uma prenda de Deus. A própria criação da vida humana representa o auge do trabalho criativo de Deus (Génesis 1.26) e é chamado na Bíblia como a “coroa da criação”. Como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus o seu valor não vai desaparecendo.

A visão puramente humanista da vida identifica o sofrimento como sendo um factor que diminui e destrói a “qualidade” de vida de uma pessoa; por essa mesma razão consideram válido o colocar fim à vida humana.

Já a visão bíblica é completamente oposta, pois o valor da vida humana não varia conforme as circunstâncias mas permanece completamente estável - mesmo no sofrimento. 

Os defensores da eutanásia olham a morte como uma “libertação” do sofrimento, tendo uma visão distorcida da existência. Não consideram a morte como algo natural mas como fruto do pecado. Defendem que a morte dos justos é “preciosa aos olhos do Senhor”; no entanto, Deus não aprova que essa morte seja apressada. Estes defensores da eutanásia esquecem-se da morte daqueles que ainda não tem a sua fé colocada em Cristo Jesus, o nosso Único e suficiente Salvador, já que para estes, em vez de ser uma libertação do sofrimento, será o começar de um sofrimento maior.

 

Resumindo…

Ao concluirmos este pequeno artigo, sobre tão complexo assunto, devemos sublinhar que a proibição de acabar directamente com a vida humana tem sido um princípio central na tradição e nos preceitos judaico-cristãos. A vida humana é um presente do nosso Deus, que é o Único capaz de determinar quando e como é que a vida de uma pessoa pode acabar. Ele é soberano! A vida é especialmente importante porque Deus nos fez à Sua imagem e semelhança. É por essa razão que devemos preservá-la e não tirá-la.

Pessoalmente, acho de que o amor cristão prático e responsável não deve obrigar ninguém a oferecer ou a receber intervenções médicas cujos inconvenientes ultrapassem os prováveis benefícios ou apenas aumentem/prolonguem o sofrimento da pessoa.

Como cristãos comprometidos não devemos tirar a vida a ninguém mas devemos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para aliviar o sofrimento daqueles que nos rodeiam. Importa ajudar as pessoas que sofrem a perceberem que existe um Deus soberano e amoroso que tem tudo debaixo do Seu controle. Ele tem um propósito para todas as coisas, n’Ele nós podemos ser completos e encontrar descanso.

 

Samuel Martins, Pastor evangélico, BSteem Junho 2009

 

1 Os historiadores Darrel Amundesen e Gary Ferngren escreveram: “Os primeiros hospitais surgiram, no quarto século, por causa da preocupação dos cristãos com todas as pessoas, principalmente os mais necessitados, pois o ser humano tem a imagem de Deus”.